Um
velho provérbio iraniano diz que a verdade é um espelho que caiu das mãos de
Deus e se quebrou. Então, cada um recolhe um fragmento e diz que toda a verdade
está naquele caco. É uma analogia didática.
George
Orwell teria sido o autor de uma frase, no período da Segunda Grande Guerra
Mundial, que se tornaria clássica: a história é escrita pelos vencedores. A
frase não é de todo destituída de razão, embora não possa ser tomada como regra
universal, longe disso.
Inegável é que a história (assim como a verdade) vai sendo reescrita, revisitada ou revelada
continuamente. Às vezes, submetidas à filtros, tentativas de controle ou censura. Noutros momentos, à maneira de um grito, outrora sufocado por interesses
poderosos, pela distorção de fatos, ou pela mentira oficial contada mil vezes. Nos tempos modernos, falsas verdades difundidas e reforçadas por interlocutores midiáticos. Claro, não sem a
cumplicidade de toda uma sociedade que se compraz na interpretação rasa da
realidade. Sociedade que não se envergonha de sua própria hipocrisia e demagogia e
que, paralelamente, se cala ante toda a sorte de injustiças sociais e inversões
de valores. Vivemos isso no passado, vivenciamos no presente e não será
diferente no futuro. Faz parte da natureza humana, dirão alguns. Sim,
contradições e paradoxos acompanham a história das sociedades. E, quando
consideramos componentes como o egoísmo e o orgulho, na defesa cega de
interesses pessoais, de classes ou de grupos que detém a primazia do poder, entendemos que a verdade não é,
necessariamente, um atributo genuinamente social, ou mesmo humano.
No
Brasil de hoje, de verdades reveladas ou ocultadas seletivamente, ampliadas ou
diminuídas de acordo com a lupa da nossa mídia nacional, geralmente tendenciosa e sem
credibilidade. E de uma justiça desmoralizada, desde as mais altas instâncias,
essa percepção fica mais evidenciada, sobretudo na profusão das chamadas “pós-verdades”, que são prontamente passadas à frente, tal como um vírus que ainda se multiplica
exponencialmente, contaminando o tecido social já tão carcomido pela iniquidade
nossa de cada dia. Afinal, vale lembrar que nenhuma sociedade sã possui
políticos, dirigentes, empresas ou instituições doentes por si só.
Acho
óbvio concluir que a posse da verdade é uma pretensão, uma bazófia. E esta
presunção não é exclusividade de nenhum indivíduo, ideologia, cultura, grupo
social ou povo. Neste sentido, manter o coração e a mente abertos para a dúvida,
para a desconstrução e reconstrução de ideias endurecidas no cimento do
preconceito, para o relativismo, em seu sentido epistemológico, denotam uma
atitude inteligente, dinâmica e altamente salutar. Pelo menos para quem deseja chegar mais próximo
da compreensão de fatos históricos ou contemporâneos. Acrescentaria que, não menos urgente e importante, é que mergulhemos
para além da superfície. Por vezes, a escuridão abissal revela mais do que a
luz dos ilusionistas, que ilude e oculta a verdade. Sejam estas verdades
relacionadas ao mundo que nos cerca, sejam relacionadas ao nosso mundo
interior.
Por aqui e por enquanto, uma
resiliente e amnésica esperança ainda me visita, quase todos os dias, repetindo
a máxima: Post tenebras lux ("Depois das trevas, luz").
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| Foto gentilmente cedida pelo amigo e fotógrafo Marcos Hermes - Todos os direitos reservados. Reprodução expressamente proibida. |

Parabéns pelo texto. Muito bem ponderado!
ResponderExcluirObrigado!
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