Pequeno perfil de um cidadão comum

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

sábado, 14 de maio de 2016

"FECHA A LUZ, APAGA A PORTA".




É curioso como cada vez mais os internautas em geral acham que tem que ter uma opinião sobre tudo. É claro que todos devem ter respeitados o seu direito a opinião. Mas refiro-me aos milhares, milhões de multi-especialistas que não leem, ou se leem não sabem interpretar ou problematizar o que leram. No entanto, possuem uma opinião formada e precisa sobre qualquer tema, arvorando-se em verdadeiros PhD’s e tentando, pateticamente, se contrapor ao pensamento de estudiosos sérios, analistas, especialistas independentes ou acadêmicos respeitados e com uma profusão de trabalhos sobre àquele tema. Não há espaço para a humildade, quanto mais para a dúvida, no sentido de comparar, ponderar e aprender com formas distintas de pensar. Eximem-se de desenvolver uma argumentação amadurecida no diálogo, no debate honesto, no contraditório, no estudo, na reflexão, contextualização e compreensão de assuntos que, muitas vezes, escapam a compreensão média. E, mesmo depois de percorrer este caminho, talvez ainda ter que deixar espaço para a dúvida, superar o orgulho e dizer utilizando uma sinceridade gloriapiresca, se necessário for: não sei, não domino este tema. Questionar é um ato saudável e necessário ao progresso de todos. Mas é imprescindível, também, se conhecer minimamente o tema o qual se pretenda abordar. Afinal, como registrou Goethe, “à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida”.

        A sociedade moderna é rica de informações. A internet é um é um universo paralelo. Uma ferramenta de trabalho, pesquisas, estudos, negócios, e também um manancial inesgotável e abissal de informações e bobagens. A questão é: o que fazer com isso quando não se sabe interpretar, quando não se tem minimamente os recursos intelectuais necessários para a sua utilização, quando não se construiu uma base sólida e satisfatória para edificar o conhecimento a partir das informações coletadas. Este o desafio pessoal, o de equacionar esta desarmonia, tendo em vista a velocidade e o alcance das tecnologias da informação. Aprender a separar o joio do trigo, para não espalhar o joio, disseminando mentiras, calúnias, meias verdades, boatos, sem sequer se certificar da qualidade da(s) fonte(s) daquelas informações, se são ou não procedentes e críveis.  

Voltando ao conhecimento. É comum, ainda no presente, o confundirem com informação. Costumava trabalhar a distinção entre esses elementos com meus alunos do ensino médio, estimulando-os ao exercício da construção do conhecimento, utilizando ferramentas que pudessem levá-los muito além do mero acúmulo de informações, considerando suas experiências, realidades, suas idiossincrasias, na perspectiva de erguer uma base para uma consciência crítica. Sempre usava, igualmente, a figura retórica de que o conhecimento, uma vez adquirido, não nos pode ser subtraído. Em um assalto, por exemplo, um ladrão pode roubar-lhe todos os seus pertences materiais, pode subtrair até a sua vida, mas não pode roubar o que você aprendeu sobre álgebra, história antiga e medieval, química inorgânica, como tocar flauta transversa, como consertar um motor de barco, como cultivar uma linda horta sem agrotóxicos, enfim. Excetuando-se algo como a biopirataria (o que seria um assunto para outro texto), o conhecimento não pode ser roubado.

Já o papel da Escola e do ensino formal, no contexto desta dualidade entre informação e conhecimento, tem sido objeto de diversos debates entre teóricos, pedagogos, magistério e comunidade escolar em geral. Não resta dúvida da falência e anacronismo do sistema, dos seus modelos e premissas. Nem entrarei aqui no mérito da falta de uma política de priorização e valorização da educação (sobretudo na esfera pública), pois é assunto para ser tratado de uma forma mais ampla, quem sabe em outro texto.

Lembro de ter visto, ainda na faculdade, a abordagem de Luckesi (1996) referente ao questionamento envolvendo informação e conhecimento. Ele busca responder a essa questão afirmando que: o conhecimento é a elucidação da realidade e decorre de um esforço de investigação para descobrir aquilo que está oculto, que não está compreendido ainda. Só depois de compreendido em seu modo de ser é que um objeto pode ser considerado conhecido. Adquirir conhecimentos não é compreender a realidade retendo informações, mas utilizando-se destas para desvendar o novo e avançar, porque, quanto mais competente for o entendimento do mundo, mais satisfatório será a ação do sujeito que a detém.


Ilustração "Dom", de autoria do meu primo, o designer e ilustrador Jhon Bermond.
            Todos os direitos reservados. A reprodução sem autorização do autor é vedada.
            www.jhonbermond.com
Não tenho a menor pretensão de versar sobre este tema buscando ineditismo de concepção ou perspectiva. Nem tampouco se trata de matéria nova, é claro. A história da filosofia é profícua de trabalhos de considerável e profunda análise deste tema. Aristóteles, por exemplo, em sua obra denominada Organon diz, em outras palavras, que é necessário saber as causas, o porquê das coisas, relacionar conceitos para saber algo em profundidade. O que é contemporâneo e que se constitui em um dos grandes paradigmas do século XXI é aquilo que foi observado, ainda no século passado, pelo visionário geógrafo brasileiro Milton Santos, ao discorrer sobre o advento do meio técnico-científico-informacional. O rápido e fácil acesso a fontes de informação, possibilitado pela avanço da técnica, das novas tecnologias, onde instantaneamente milhões de informações podem ser acessadas por um número cada vez maior de pessoas, é que estabeleceram um novo dilema para a sociedade: como capacitar o indivíduo para, organicamente, processar as informações, de forma sistêmica, integrada, coerente, observando a relação causa-efeito, consolidando o processo de construção do conhecimento e formando uma visão autônoma e crítica da realidade que o cerca.

Passando a examinar, brevemente, o papel da grande mídia na era da informação, podemos dizer que, em um contexto de poderosos e influentes interesses econômicos, tanto no Brasil como no mundo, a linha editorial das grandes empresas de comunicação é forte e decisivamente pautada pela égide capitalista de mercado. A propalada imparcialidade ou independência não passa de um estratagema. Não é raro que a informação travestida de notícia, esteja despida de algo que se aproxime da verdade, ou pelo menos encontra-se devidamente maquiada, de acordo com a conveniência do jogo do poder no momento. Aqueles profissionais que buscam exercer o jornalismo com autonomia, independência e máxima fidedignidade, e são muitos, enfrentam uma ingrata e árdua batalha de sobrevivência no negócio da informação, onde se encontram, também, os bajuladores, capachos e espécie de porta-vozes ou assessores de imprensa do poder político, institucional, corporativo ou do mercado financeiro.

A informação pode se constituir, assim, em algo facilmente manipulável e colocada à venda, como um produto na prateleira de um supermercado. Então, como saber? Onde a verdade? O que pode estar por trás de uma “notícia”? Quais os interesses e os agentes interessados? Qual o impacto que, numa sociedade de analfabetos políticos e de cidadãos que agem com desonestidade intelectual, a disseminação e massificação de uma suposta notícia, ou de uma seletividade da informação pode alcançar? Quando, e se a verdade vier a superfície, o estrago já está feito e o objetivo consumado. Não tenho dúvidas, portanto, que subestimar ou relativizar o poder da mídia é infantilidade ou prestidigitação.

O papel das redes sociais e mídias alternativas, neste sentido, tem sido de vital importância para a veiculação e discussão, tanto na busca por consolidar o texto oficial ou oficioso, quanto revelando o contraditório, a face oculta da notícia, a informação sonegada. É preciso atentar para o fato de que estes recursos contemporâneos da comunicação, podem, também, ser usados tão somente para forjar verdades no atendimento de posições sectárias ou fundamentalistas, seja de uma ideologia afiliada aos setores de esquerda ou de direita - termos que, a meu ver, precisam ser revisados em seu emprego na atualidade. Particularmente, entendo que podemos em determinados momentos adotar posições mais radicais sobre um assunto, princípios e pontos basilares. Contudo, é de bom alvitre procurar manter abertos os canais do diálogo construtivo e do bom debate. 

Deixando o aspecto midiático de lado, lembro de ter lido, em algum lugar, que o conhecimento liberta. Sim. Mas pode escravizar também. Talvez nem tanto quanto a ignorância. Todavia, se não estivermos abertos a evolução do pensamento, às coisas novas (como disse o poeta Belchior), e a própria dúvida, poderemos ser candidatos a nos tornar escravos de nós mesmos. O conhecimento é algo dinâmico por natureza, pois que acompanha o nosso próprio processo evolutivo, sendo um contrassenso o apego a algo que já esteja francamente superado, a par do ponto de vista e do livre arbítrio de cada um.

Neste particular, finalizando, penso que a humildade e a simplicidade são virtudes que, se verdadeiramente alcançadas, podem contribuir para que consigamos, para além do conhecimento, obter sabedoria. Conforme Lao-Tsé, aquele que sabe, não discute, o que não sabe, discute. E, ainda citando o mestre taoísta, que em um dos livros mais traduzidos do mundo, o Tao Te Ching, afirma: Para ganhar conhecimento, adicione coisas todos os dias. Para ganhar sabedoria, elimine coisas todos os dias.

Levántate, vámonos!


           Paulo Stocco
Geógrafo, Analista Ambiental e Professor