Pequeno perfil de um cidadão comum

terça-feira, 25 de julho de 2017

MUSEU DAS VERDADES




Um velho provérbio iraniano diz que a verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e se quebrou. Então, cada um recolhe um fragmento e diz que toda a verdade está naquele caco. É uma analogia didática.

George Orwell teria sido o autor de uma frase, no período da Segunda Grande Guerra Mundial, que se tornaria clássica: a história é escrita pelos vencedores. A frase não é de todo destituída de razão, embora não possa ser tomada como regra universal, longe disso.

Inegável é que a história (assim como a verdade) vai sendo reescrita, revisitada ou revelada continuamente. Às vezes, submetidas à filtros, tentativas de controle ou censura. Noutros momentos, à maneira de um grito, outrora sufocado por interesses poderosos, pela distorção de fatos, ou pela mentira oficial contada mil vezes. Nos tempos modernos, falsas verdades difundidas e reforçadas por interlocutores midiáticos. Claro, não sem a cumplicidade de toda uma sociedade que se compraz na interpretação rasa da realidade. Sociedade que não se envergonha de sua própria hipocrisia e demagogia e que, paralelamente, se cala ante toda a sorte de injustiças sociais e inversões de valores. Vivemos isso no passado, vivenciamos no presente e não será diferente no futuro. Faz parte da natureza humana, dirão alguns. Sim, contradições e paradoxos acompanham a história das sociedades. E, quando consideramos componentes como o egoísmo e o orgulho, na defesa cega de interesses pessoais, de classes ou de grupos que detém a primazia do poder, entendemos que a verdade não é, necessariamente, um atributo genuinamente social, ou mesmo humano.

No Brasil de hoje, de verdades reveladas ou ocultadas seletivamente, ampliadas ou diminuídas de acordo com a lupa da nossa mídia nacional, geralmente tendenciosa e sem credibilidade. E de uma justiça desmoralizada, desde as mais altas instâncias, essa percepção fica mais evidenciada, sobretudo na profusão das chamadas “pós-verdades”, que são prontamente passadas à frente, tal como um vírus que ainda se multiplica exponencialmente, contaminando o tecido social já tão carcomido pela iniquidade nossa de cada dia. Afinal, vale lembrar que nenhuma sociedade sã possui políticos, dirigentes, empresas ou instituições doentes por si só.

Acho óbvio concluir que a posse da verdade é uma pretensão, uma bazófia. E esta presunção não é exclusividade de nenhum indivíduo, ideologia, cultura, grupo social ou povo. Neste sentido, manter o coração e a mente abertos para a dúvida, para a desconstrução e reconstrução de ideias endurecidas no cimento do preconceito, para o relativismo, em seu sentido epistemológico, denotam uma atitude inteligente, dinâmica e altamente salutar. Pelo menos para quem deseja chegar mais próximo da compreensão de fatos históricos ou contemporâneos. Acrescentaria que, não menos urgente e importante, é que mergulhemos para além da superfície. Por vezes, a escuridão abissal revela mais do que a luz dos ilusionistas, que ilude e oculta a verdade. Sejam estas verdades relacionadas ao mundo que nos cerca, sejam relacionadas ao nosso mundo interior.

Por aqui e por enquanto, uma resiliente e amnésica esperança ainda me visita, quase todos os dias, repetindo a máxima: Post tenebras lux ("Depois das trevas, luz").


Foto gentilmente cedida pelo amigo e fotógrafo Marcos Hermes - Todos os direitos reservados. Reprodução expressamente proibida.